Posts de Outubro, 2008|Página de posts mensais

Ata 02/09/2008

Universidade Federal de Pernambuco
Departamento de Filosofia

Grupo Kant 02/09/2008
Coordenador: Prof. Dr. Érico Andrade

Estavam presentes: Érico Andrade, Írio Coutinho, Felipe Sodré, Victor Silveira e Mariana Sarmento.

Obs. Não houve leitura da Crítica nessa secção. Contudo, foram debatidas e abordadas questões relativas ao último encontro.

B288. Distinção entre os conceitos de existência em Kant: 1ª Existência é considerada por Kant como uma categoria, isto é, ela expressa a forma de um juízo, sendo condição de possibilidade para formação de juízos com o predicado existência. Nesse caso, a existência tem um caráter semântico. 2ª A existência tem também um outro significado na obra de Kant. Ela expressa a posição de um objeto face ao entendimento.

Conseqüência: a partir dessa distinção Kant irá edificar sua crítica ao racionalismo no que tange ao argumento ontológico, cuja constituição parece confundir os dois conceitos de existência acima expostos. Segundo o argumento ontológico, o conceito de Deus, enquanto algo possível, implica sua existência efetiva. Contudo, a existência é distinta da possibilidade no âmbito empírico ou no sentido mais robusto do termo existência, isto é, a possibilidade de formular o juízo Deus é não implica a existência de Deus. A existência só pode ser efetivada enquanto posição de um objeto face ao entendimento, que implica, por seu turno, uma apresentação desse objeto na sensibilidade; o que não ocorre com Deus. A crítica sub-reptícia ao idealismo passa pela afirmação da impossibilidade da razão pura – sem recurso à experiência – determinar ou produzir conhecimentos. As categorias do entendimento quando não aplicadas à experiência são vazias e não produzem conhecimento.

Conseqüências dos argumentos levantados para a própria doutrina de Kant: a razão pura não produz conhecimento – como parece sugerir os filósofos modernos que pretendem edificar uma ciência a partir de leis a priori – nem é capaz de formular proposições científicas – válidas – que não sejam sintéticas. O projeto kantiano recusa o ideal moderno de dispor as ciências conforme um aparato dedutivo que encontraria sua legitimidade apenas no comércio com a metafísica. Desse modo, o pensamento kantiano parece sugerir que não se pode abdicar da sensibilidade – ou mais precisamente das intuições a priori da sensibilidade: espaço e tempo – nem para o fundamento das leis da natureza. Kant concede aos empiristas que todo conhecimento passa pelo crivo da sensibilidade – portanto, não há idéias inatas –, mas ele purifica a sensiblidade, tornando-a a priori. Com isso Kant pode afirmar que a necessidade das leis da natureza nem emana de Deus. Kant põe em questão o fundamento central do idealismo, conforme o qual é possível fundamentar as leis da natureza em bases metafísicas dogmáticas, bem como concede ao empirismo a raiz absolutamente humana de todo conhecimento, ao inscrever na estrutura cognitiva do sujeito transcendental as raízes do conhecimento. Kant traça uma espécie de genealogia do conhecimento no intuito de mostrar que ele não é dado (como pressupõe os empiristas), nem descoberto (como pressupõe os idealistas), mas construído pelo sujeito em função do qual convém legitimar as relações entre os objetos. Mesmo a matemática é sintética e sua legitimidade é dada na sua própria construção, contrariando, algo que unia, em certa medida, os empiristas e os racionalistas: o caráter a priori e analítico da matemática.

Grupo Kant 12/08/2008

Universidade Federal de Pernambuco
Departamento de Filosofia
Grupo Kant 12/08/2008
Coordenador: Prof. Érico Andrade.

B275-282

Observações gerais: o uso de termos matemáticos.

Embora na refutação do idealismo e em outras passagens da Crítica Kant empreenda termos matemáticos – lembrando que Kant condenará metafísica, entre outras coisas, pelo uso do método matemático – a sua preocupação é mais estilista; em consonância com o estilo acadêmico da época.

Observações sobre a relação entre tempo e espaço.

Problema: Na refutação do idealismo Kant parece sugerir uma certa subordinação do tempo ao espaço o que entra em conflito com as demais passagens do texto, sobretudo, com a Estética Transcendenal.

1 Essa aparente confusão kantiana pode ser explicada, em parte, por sua ânsia de contrariar ou de suspender a certeza idealista do conhecimento de si – interno – é mais imediato que o externo. Para Kant a experiência externa é anterior a experiência interna, de sorte que é necessário ter um contato com o mundo para se ter um reconhecimento de si. O conhecimento inato ou por uma via privilegiada, estruturada numa reflexão de cunho solipsista, é interdito para Kant e, por isso, o conhecimento de si tem que partir do reconhecimento do outro: mundo.

2 A recepção da Crítica fora marcada por um ataque à suposta filiação kantiana às doutrinas de Berkeley e Espinosa (B275-276). Essa foi um das motivações que conduziu Kant a reformular parte da refutação do idealismo. Para fugir ao solipsismo que acometera aqueles filósofos Kant preferiu dar ênfase no espaço no intuito de mostrar, por via de um argumento, em certa medida, ad hoc que o eu sem um contato com a experiência é incapaz de se reconhecer. Assim, se a existência implica relação com a experiência, apenas no contato com o mundo externo é que se pode apreender a existência do sujeito. O problema do idealismo foi desconsiderar a experiência como elemento constituinte da certeza do eu penso.

Perspectivas sobre a relação espaço tempo: talvez uma solução para compreender-se a relação entre espaço e tempo no edifício crítico seja tomar essas duas intuições priori da sensibilidade como momentos de um mesmo processo – talvez dialético? – conforme o qual o eu reconhece sua existência ao mesmo tempo em que reconhece a necessidade das coisas exteriores. Ou seja, dado que o sujeito não pode se desvencilhar de sua estrutura sensível quando visa conhecer algo, ele não pode ter o conhecimento de si, sem pressupor um conhecimento sensível do mundo, ao passo que o mundo, enquanto fenômenos ordenados e encadeados segundo leis, não pode ser concebido dessa forma sem um referencial que lhe confira unidade.

Problemas: se não há uma intuição correlata ao eu penso, esse eu seria estritamente formal? Isto é, o eu formal seria ontologicamente distinto do eu empírico? Poderíamos tecer uma distinção entre eu material e eu formal, retomando, de algum modo, a tradição metafísica que prescreve a divisão entre corpo e alma?

Ata 05/08/2008

Universidade Federal de Pernambuco
Departamento de Filosofia

Grupo Kant 05/08/2008
Coordenador: Prof. Dr. Érico Andrade

B262 Observações sobre o tempo:

1 O tempo é uma regra. Aliás, a única regra do entendimento. O sentido do termo regra (regle) é ligado mais a uma condição para operação do entendimento que propriamente à expressão de uma categoria ou de uma determinação inteligível da sensibilidade que determina o modo de proceder do entendimento. Isto é, o tempo regula o encadeamento de fenômenos, organizando previamente os dados da percepção. Nessa perspectiva, ele é a condição fundamental para as operações do entendimento, mas não interfere diretamente no modo como elas ocorrem. Não se trata, portanto, de uma condição interna ou imanente à própria estrutura categorial do entendimento, mas de uma condição externa (da sensibilidade) requerida para o próprio funcionamento do entendimento. A regulamentação da percepção empreendida pelo tempo não implica uma categorização e classificação dos fenômenos, mas apenas um ordenamento. A relação entre o entendimento e sensibilidade não seria, desse modo, de influência de um sobre o outro, mas de complementaridade.

B274-275 Observações sobre o cogito.

1 Observação sobre o cogito. Descartes não prova o cogito empiricamente. Para a filosofia cartesiana o eu é irredutível e conhecido por um raciocínio indireto – reductio ad absurdum – cuja estrutura (método) matemática não tangencia a sensibilidade nem, muito menos, a experiência. Ao classificar o cogito cartesiano de empírico Kant parece introduzir sua própria visão da certeza do eu pensante que demanda um contato com a experiência. Menos que tentar compreender o pensamento cartesiano o desenrolar da prova no sistema, Kant parece avançar sua própria tese: não conhecimento que não seja de algum modo empírico.

2 Em relação ao raciocínio cartesiano que conduz ao cogito, deve-se notar que a formulação cartesiana do Discours : je pense, donc je suis poderia ser pouco consistente no sentido que poderíamos dizer no máximo, a partir dela, que se eu penso, há pensamentos; o que implica necessariamente que existo. Contudo, nas Meditações Descartes esquiva-se dessa objeção ao defender que eu não provo que existo porque penso, mas porque não posso conceber a minha própria existência. Isto é, primeiro provo que existo e, em seguida, provo que existo enquanto ser pensante. A prova do Discours parece condensar as duas diferentes provas etapas das Meditações[1].

B274-275 (BXXVI / Prefácio) Observações gerais:

1 Categorais. As categorias não têm um lugar determinado no pensamento kantiano, ou seja, elas não pertencem ao sujeito empírico, embora sejam fundamentais para a constituição do conhecimento. Por não ter lugar determinado (ou não poder ter um lugar determinado?) as categorias são alvo de controvérsias: qual o critério que conduziu Kant a estabelecer o número de doze categorias? Poderíamos considerar que o número de categorias seria eventualmente revisável para Kant, uma vez que as terceiras categorias dos quatro blocos são derivadas das duas que a precede. Ou seja, quatro categorias das doze seriam no mínimo redutíveis, de algum modo, às demais categorias de cada grupo o que torna o número de doze categorias relativo. Contudo, Kant tenta derivar as categorias das formas possíveis do juízo, recuperando, desse modo, uma tradição francesa (Port Royal) de não esgotar a lógica na forma da proposição, mas de pensá-la em função da sua aplicabilidade a toda experiência possível. O critério para o estabelecimento das categorias seria, portanto, lógico.

2 Coisa-em-si. Se a coisa-em-si pode ser considerada como um limite lógico, isto é, ela refere-se ao limite do sujeito que não pode compreender as coisas consideradas em si mesmas ou ainda ele só pode compreendê-las no âmbito de suas faculdades (entendimento e sensibilidade), como explicar a atribuição de existência – ainda que de forma indireta – as coisas consideradas em si mesmas ou mesmo as coisas de forma geral?


[1] Cf. Andrade, É, M. O. A função do método de análise na constituição do argumento do cogito nas Meditações: uma leitura do cogito através da reductio ad absurdum (prelo).