Ata 05/08/2008

Universidade Federal de Pernambuco
Departamento de Filosofia

Grupo Kant 05/08/2008
Coordenador: Prof. Dr. Érico Andrade

B262 Observações sobre o tempo:

1 O tempo é uma regra. Aliás, a única regra do entendimento. O sentido do termo regra (regle) é ligado mais a uma condição para operação do entendimento que propriamente à expressão de uma categoria ou de uma determinação inteligível da sensibilidade que determina o modo de proceder do entendimento. Isto é, o tempo regula o encadeamento de fenômenos, organizando previamente os dados da percepção. Nessa perspectiva, ele é a condição fundamental para as operações do entendimento, mas não interfere diretamente no modo como elas ocorrem. Não se trata, portanto, de uma condição interna ou imanente à própria estrutura categorial do entendimento, mas de uma condição externa (da sensibilidade) requerida para o próprio funcionamento do entendimento. A regulamentação da percepção empreendida pelo tempo não implica uma categorização e classificação dos fenômenos, mas apenas um ordenamento. A relação entre o entendimento e sensibilidade não seria, desse modo, de influência de um sobre o outro, mas de complementaridade.

B274-275 Observações sobre o cogito.

1 Observação sobre o cogito. Descartes não prova o cogito empiricamente. Para a filosofia cartesiana o eu é irredutível e conhecido por um raciocínio indireto – reductio ad absurdum – cuja estrutura (método) matemática não tangencia a sensibilidade nem, muito menos, a experiência. Ao classificar o cogito cartesiano de empírico Kant parece introduzir sua própria visão da certeza do eu pensante que demanda um contato com a experiência. Menos que tentar compreender o pensamento cartesiano o desenrolar da prova no sistema, Kant parece avançar sua própria tese: não conhecimento que não seja de algum modo empírico.

2 Em relação ao raciocínio cartesiano que conduz ao cogito, deve-se notar que a formulação cartesiana do Discours : je pense, donc je suis poderia ser pouco consistente no sentido que poderíamos dizer no máximo, a partir dela, que se eu penso, há pensamentos; o que implica necessariamente que existo. Contudo, nas Meditações Descartes esquiva-se dessa objeção ao defender que eu não provo que existo porque penso, mas porque não posso conceber a minha própria existência. Isto é, primeiro provo que existo e, em seguida, provo que existo enquanto ser pensante. A prova do Discours parece condensar as duas diferentes provas etapas das Meditações[1].

B274-275 (BXXVI / Prefácio) Observações gerais:

1 Categorais. As categorias não têm um lugar determinado no pensamento kantiano, ou seja, elas não pertencem ao sujeito empírico, embora sejam fundamentais para a constituição do conhecimento. Por não ter lugar determinado (ou não poder ter um lugar determinado?) as categorias são alvo de controvérsias: qual o critério que conduziu Kant a estabelecer o número de doze categorias? Poderíamos considerar que o número de categorias seria eventualmente revisável para Kant, uma vez que as terceiras categorias dos quatro blocos são derivadas das duas que a precede. Ou seja, quatro categorias das doze seriam no mínimo redutíveis, de algum modo, às demais categorias de cada grupo o que torna o número de doze categorias relativo. Contudo, Kant tenta derivar as categorias das formas possíveis do juízo, recuperando, desse modo, uma tradição francesa (Port Royal) de não esgotar a lógica na forma da proposição, mas de pensá-la em função da sua aplicabilidade a toda experiência possível. O critério para o estabelecimento das categorias seria, portanto, lógico.

2 Coisa-em-si. Se a coisa-em-si pode ser considerada como um limite lógico, isto é, ela refere-se ao limite do sujeito que não pode compreender as coisas consideradas em si mesmas ou ainda ele só pode compreendê-las no âmbito de suas faculdades (entendimento e sensibilidade), como explicar a atribuição de existência – ainda que de forma indireta – as coisas consideradas em si mesmas ou mesmo as coisas de forma geral?


[1] Cf. Andrade, É, M. O. A função do método de análise na constituição do argumento do cogito nas Meditações: uma leitura do cogito através da reductio ad absurdum (prelo).

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