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Notas sobre a Introdução da “Crítica da Razão Pura”

Notas sobre a Introdução da Crítica da Razão Pura
Por Érico Andrade

            Kant não começa sua introdução, estabelecendo a questão norteadora da CRP, mas pela solução que pretende trazer para a problemática da relação entre o empírico e o transcendental ou não sensível. O primeiro parágrafo porta afirmações peremptórias no que concerne à certeza de que o conhecimento começa – na ordem do tempo – pela experiência. Não há mais canais de negociação para o idealismo: a experiência é incontornável no que se refere ao conhecimento.
            Com efeito, a necessidade e a universalidade como predicados de algumas certezas científica, sobretudo da física de Newton, parecem igualmente inegociáveis, concedendo ao idealismo uma sobrevida. O tratamento para a crise aguda que acomete o idealismo será proporcional à gravidade do problema. Ele será Crítico.
            Kant procede na Introdução a uma demarcação do conhecimento, separando o priori do empírico – em termos platônicos: o sensível do inteligível – no intuito de estabelecer uma distribuição eqüitativa do conhecimento, isto é, razão e sensibilidade têm pesos iguais. Se por um lado, necessidade e universalidade são sinais seguros de um conhecimento a priori (B4), por outro, esses preceitos só investem-se de efetividade quando comercializados com a experiência, para qual eles convergem como guia de síntese. Uma vez interditada a busca por esses princípios norteadores da experiência na própria experiência (Hume), o único caminho possível é via sujeito – sob o qual mesmo o senso comum está assentado – e suas duas faculdades: sensibilidade e entendimento (Kant não é claro quanto ao número de faculdades, visto que por vezes ele sugere que a imaginação também é uma faculdade).
            Se o conhecimento humano é capaz de elaborar juízos necessários e universais (B4-5), convém tornar claro como isso é possível. A metafísica resigna-se à tarefa de traçar um caminho que a negue enquanto saber puro a priori à medida que a reafirme enquanto produtora das certezas e conceitos fundamentais da ciência, isto é, dos juízos sintéticos a priori. A metáfora cartesiana desenhada nos Princípios, que colocava a metafísica na raiz do conhecimento humano, ganha em Kant a força de um projeto transcendental. Kant retoma, portanto, a batalha cartesiana contra o ceticismo novamente recuperando o papel do sujeito; agora transcendental e deflacionado em relação ao sujeito cartesiano.
            A estratégia que Kant arquiteta na Introdução da CRP é recuperar nas ciências os juízos sintéticos a priori, apresentando os fundamentos puros que permitem uma compreensão transcendental da experiência. Desse modo, na Introdução Kant revisa a física, matemática e metafísica, apontando alguns os juízos sintéticos a priori daquelas ciências. Uma vez traçado esses juízos, pode-se proceder a uma crítica da razão pura, perguntando como são possíveis a matemática pura, a física pura e a metafísica enquanto ciência (B20-21). A CRP estabelece-se como ciência do ponto de vista propedêutico – quase metodológico – cuja função é controlar o uso indiscriminado da razão via experiência. O grande pressuposto kantiano é que existe conhecimento a priori, cabendo à razão provar como eles são possíveis.

Resumos e comparação dos Prefácios da “Crítica da Razão Pura”

Resumos e comparações dos prefácios A(1871) e B(1787) da Crítica da Razão Pura.
Por Érico Andrade

1. Pontos principais do prefácio A:

1.1 A falta de objetividade da metafísica é atestada via experiência, isto é o teatro de disputas infindáveis que se distancia da experiência é a metafísica, a inevitável metafísica.
1.2 Os conceitos puros a priori não derivados da experiência numa espécie de fisiologia do entendimento à moda de Locke. Cf. A 87 e B119.
1.3 A razão deve instituir seu próprio tribunal sob a égide de suas leis eternas e imutáveis.
1.4 A filosofia como uma “terapia” que visa dissipar mal-entendidos.
1.5 Análise da razão sem experiência seria a CRP.
1.6 A priori é uma certeza apodíctica.
1.7 A dedução dos conceitos puros do entendimento custou um grande esforço.

2. Principais pontos do Prefácio B.

2.1 Kant começa dissertando sobre a lógica e suas subdivisões, atribuindo a essa última uma anterioridade no conhecimento. Ela seria uma espécie de anti-câmera do conhecimento.
2.2 Divisão entre conhecimento teórico e conhecimento prático.
2.3 A matemática e a física devem determinar a priori seu objeto.
2.4 A razão só entende aquilo que ela produz. Ela procura na natureza aquilo que ela pôs.
2.5 A metafísica se eleva aos limites da experiência.
2.6 O conhecimento não é regulado pelos objetos. A revolução copernicana.
2.7 A CRP. tenta dotar de provas suficientes a leis que a priori fundamentam a natureza.
2.8 O conhecimento refere-se apenas aos fenômenos e não à coisa em si. O conhecimento deve estar condicionado à experiência.
2.9 O método da metafísica deve visar a circunscrição dos seus próprios limites.
2.10 A CRP te uma utilidade negativa.
2.11 A CRP deve direcionar a metafísica para a moral.
2.12 Podemos pensar sobre a coisa em si, mas não podemos conhecê-la.
2.13 Conhecimento é dar a intuição à qual corresponde um certo conceito.
2.14 Fenômeno e coisa em si.
2.15 A metafísica sempre existirá.
2.16 Crítica ao dogmatismo, ao procedimento da razão sem crítica.
2.17 Da crítica à metafísica sólida.
2.18 Kant identifica os lugares frágeis da CRP, dentre eles convém destacar a dedução dos conceitos a priori do entendimento, os quais já haviam demandado, conforme atesta o primeiro prefácio, um grande esforço do autor.
2.19 Longa nota sobre o tempo.
2.20 Kant incentiva o leitor a confrontar as duas edições.
2.21 Kant toma seu projeto como uma propedêutica.

3. Pontos em comum entre os dois prefácios: crítica a metafísica a partir da noção de experiência.

3.1 Crítica à razão quando desprovida da experiência que possa controlar e desfazer seus mal-entendidos.
3.2 A razão só entende aquilo que ela produz. Ela procura na natureza aquilo que ela pôs.

A idéia de ciência no prefácio de Princípios Metafísicos da Ciência da Natureza(1786)

A idéia de ciência no prefácio de Princípios Metafísicos da Ciência da Natureza(1786)
Por Írio Coutinho

  • Kant define natureza como a totalidade do que se apresenta para mim excluindo os objetos não sensíveis. Esta natureza pé dividida em extensa e pensante no que resulta uma doutrina dos corpos e uma doutrina da alma.
  • Define ciência como “qualquer doutrina quando deve formar um sistema, isto é, um todo do conhecimento ordenado segundo princípios.” “Estes princípios podem ser os fundamentos de um encadeamento empírico ou de um enlace racional”.
  • Kant divide a ciência da natureza em ciência histórica e em ciência racional. Fatos sistematicamente ordenados caracterizam a ciência histórica. A ciência da natureza se for a priori denominar-se-á genuína e sendo a posteriori chamamos imprópria.
  • Mais tarde Kant coloca a ciência como “totalidade do conhecimento sistemático”. Chamada de racional se a conexão do conhecimento nesse sistema constituir uma concatenação de causas e conseqüências. Apenas para o caso de os princípios serem empíricos o nome de ciência é indevido. É aí que Kant classifica a química, não como ciência e sim como arte sistemática.
  • Toda a ciência genuína precisa de sua parte pura, esta é encontrada na matemática e na metafísica. A metafísica é chamada conhecimento racional por simples conceitos, enquanto que a matemática constrói seus conceitos “mediante a apresentação do objeto numa intuição a priori
  • Quanto mais matemática tiver na ciência mais genuína ela é.