Grupo Kant – Ata III (02/07/2007)
Questões abordadas:
1 Como pensar a matéria sem permanência? O conceito de permanência não estaria contido no de permanência, portanto, não seria um juízo analítico?
Segundo Kant matéria é aquilo que ocupa lugar no espaço.
Argumento contra a definição kantiana: se a cosmologia não é possível, ou melhor, ela engendra sempre em contradição, não seria necessário admitir que a matéria permanece?
2 A partir de questões suscitadas no grupo poderíamos perguntar por que Kant não empreendeu – através de um texto – a construção de princípios metafísicos da matemática, analogamente aos princípios metafísicos da filosofia da natureza (física pura)? Qual é a natureza do conhecimento matemático?
Observações:
1 Segundo Friedman a termodinâmica seria para Kant uma ciência empírica.
2 Para Kant a geometria seria a ciência do espaço e a mecânica a do tempo.
3 A física para Kant ocupa-se da relação entre os objetos, ao passo que a matemática constrói seus objetos. (Pergunta pendente: o que significa construir os seus objetos?).
4 Repetidas vezes Kant afirma que matemática é ciência (exemplo, B20).
5 Parece haver uma certa confusão no emprego do termo matéria em B17-18 quando Kant refere-se ao princípio da conservação, posto que esse princípio aplicar-se-ia à massa e não à matéria como sugere a passagem citada.
6 A metafísica produz juízos sintéticos a priori, mas que não são válidos.
Notas sobre a Introdução da “Crítica da Razão Pura”
Notas sobre a Introdução da Crítica da Razão Pura
Por Érico Andrade
Kant não começa sua introdução, estabelecendo a questão norteadora da CRP, mas pela solução que pretende trazer para a problemática da relação entre o empírico e o transcendental ou não sensível. O primeiro parágrafo porta afirmações peremptórias no que concerne à certeza de que o conhecimento começa – na ordem do tempo – pela experiência. Não há mais canais de negociação para o idealismo: a experiência é incontornável no que se refere ao conhecimento.
Com efeito, a necessidade e a universalidade como predicados de algumas certezas científica, sobretudo da física de Newton, parecem igualmente inegociáveis, concedendo ao idealismo uma sobrevida. O tratamento para a crise aguda que acomete o idealismo será proporcional à gravidade do problema. Ele será Crítico.
Kant procede na Introdução a uma demarcação do conhecimento, separando o priori do empírico – em termos platônicos: o sensível do inteligível – no intuito de estabelecer uma distribuição eqüitativa do conhecimento, isto é, razão e sensibilidade têm pesos iguais. Se por um lado, necessidade e universalidade são sinais seguros de um conhecimento a priori (B4), por outro, esses preceitos só investem-se de efetividade quando comercializados com a experiência, para qual eles convergem como guia de síntese. Uma vez interditada a busca por esses princípios norteadores da experiência na própria experiência (Hume), o único caminho possível é via sujeito – sob o qual mesmo o senso comum está assentado – e suas duas faculdades: sensibilidade e entendimento (Kant não é claro quanto ao número de faculdades, visto que por vezes ele sugere que a imaginação também é uma faculdade).
Se o conhecimento humano é capaz de elaborar juízos necessários e universais (B4-5), convém tornar claro como isso é possível. A metafísica resigna-se à tarefa de traçar um caminho que a negue enquanto saber puro a priori à medida que a reafirme enquanto produtora das certezas e conceitos fundamentais da ciência, isto é, dos juízos sintéticos a priori. A metáfora cartesiana desenhada nos Princípios, que colocava a metafísica na raiz do conhecimento humano, ganha em Kant a força de um projeto transcendental. Kant retoma, portanto, a batalha cartesiana contra o ceticismo novamente recuperando o papel do sujeito; agora transcendental e deflacionado em relação ao sujeito cartesiano.
A estratégia que Kant arquiteta na Introdução da CRP é recuperar nas ciências os juízos sintéticos a priori, apresentando os fundamentos puros que permitem uma compreensão transcendental da experiência. Desse modo, na Introdução Kant revisa a física, matemática e metafísica, apontando alguns os juízos sintéticos a priori daquelas ciências. Uma vez traçado esses juízos, pode-se proceder a uma crítica da razão pura, perguntando como são possíveis a matemática pura, a física pura e a metafísica enquanto ciência (B20-21). A CRP estabelece-se como ciência do ponto de vista propedêutico – quase metodológico – cuja função é controlar o uso indiscriminado da razão via experiência. O grande pressuposto kantiano é que existe conhecimento a priori, cabendo à razão provar como eles são possíveis.
Resumos e comparação dos Prefácios da “Crítica da Razão Pura”
Resumos e comparações dos prefácios A(1871) e B(1787) da Crítica da Razão Pura.
Por Érico Andrade
1. Pontos principais do prefácio A:
1.1 A falta de objetividade da metafísica é atestada via experiência, isto é o teatro de disputas infindáveis que se distancia da experiência é a metafísica, a inevitável metafísica.
1.2 Os conceitos puros a priori não derivados da experiência numa espécie de fisiologia do entendimento à moda de Locke. Cf. A 87 e B119.
1.3 A razão deve instituir seu próprio tribunal sob a égide de suas leis eternas e imutáveis.
1.4 A filosofia como uma “terapia” que visa dissipar mal-entendidos.
1.5 Análise da razão sem experiência seria a CRP.
1.6 A priori é uma certeza apodíctica.
1.7 A dedução dos conceitos puros do entendimento custou um grande esforço.
2. Principais pontos do Prefácio B.
2.1 Kant começa dissertando sobre a lógica e suas subdivisões, atribuindo a essa última uma anterioridade no conhecimento. Ela seria uma espécie de anti-câmera do conhecimento.
2.2 Divisão entre conhecimento teórico e conhecimento prático.
2.3 A matemática e a física devem determinar a priori seu objeto.
2.4 A razão só entende aquilo que ela produz. Ela procura na natureza aquilo que ela pôs.
2.5 A metafísica se eleva aos limites da experiência.
2.6 O conhecimento não é regulado pelos objetos. A revolução copernicana.
2.7 A CRP. tenta dotar de provas suficientes a leis que a priori fundamentam a natureza.
2.8 O conhecimento refere-se apenas aos fenômenos e não à coisa em si. O conhecimento deve estar condicionado à experiência.
2.9 O método da metafísica deve visar a circunscrição dos seus próprios limites.
2.10 A CRP te uma utilidade negativa.
2.11 A CRP deve direcionar a metafísica para a moral.
2.12 Podemos pensar sobre a coisa em si, mas não podemos conhecê-la.
2.13 Conhecimento é dar a intuição à qual corresponde um certo conceito.
2.14 Fenômeno e coisa em si.
2.15 A metafísica sempre existirá.
2.16 Crítica ao dogmatismo, ao procedimento da razão sem crítica.
2.17 Da crítica à metafísica sólida.
2.18 Kant identifica os lugares frágeis da CRP, dentre eles convém destacar a dedução dos conceitos a priori do entendimento, os quais já haviam demandado, conforme atesta o primeiro prefácio, um grande esforço do autor.
2.19 Longa nota sobre o tempo.
2.20 Kant incentiva o leitor a confrontar as duas edições.
2.21 Kant toma seu projeto como uma propedêutica.
3. Pontos em comum entre os dois prefácios: crítica a metafísica a partir da noção de experiência.
3.1 Crítica à razão quando desprovida da experiência que possa controlar e desfazer seus mal-entendidos.
3.2 A razão só entende aquilo que ela produz. Ela procura na natureza aquilo que ela pôs.
A idéia de ciência no prefácio de Princípios Metafísicos da Ciência da Natureza(1786)
A idéia de ciência no prefácio de Princípios Metafísicos da Ciência da Natureza(1786)
Por Írio Coutinho
- Kant define natureza como a totalidade do que se apresenta para mim excluindo os objetos não sensíveis. Esta natureza pé dividida em extensa e pensante no que resulta uma doutrina dos corpos e uma doutrina da alma.
- Define ciência como “qualquer doutrina quando deve formar um sistema, isto é, um todo do conhecimento ordenado segundo princípios.” “Estes princípios podem ser os fundamentos de um encadeamento empírico ou de um enlace racional”.
- Kant divide a ciência da natureza em ciência histórica e em ciência racional. Fatos sistematicamente ordenados caracterizam a ciência histórica. A ciência da natureza se for a priori denominar-se-á genuína e sendo a posteriori chamamos imprópria.
- Mais tarde Kant coloca a ciência como “totalidade do conhecimento sistemático”. Chamada de racional se a conexão do conhecimento nesse sistema constituir uma concatenação de causas e conseqüências. Apenas para o caso de os princípios serem empíricos o nome de ciência é indevido. É aí que Kant classifica a química, não como ciência e sim como arte sistemática.
- Toda a ciência genuína precisa de sua parte pura, esta é encontrada na matemática e na metafísica. A metafísica é chamada conhecimento racional por simples conceitos, enquanto que a matemática constrói seus conceitos “mediante a apresentação do objeto numa intuição a priori”
- Quanto mais matemática tiver na ciência mais genuína ela é.
Grupo Kant – Ata II (25/06/2007)
Obs. A discussão do dia 25 girou em torno da problemática ciência e matemática. Embora para a organização desse brevíssimo resumo dos pontos levantados no referido tracemos uma distinção entre matemática e ciência, não pretendemos estabelecer uma linha demarcatória entre esses dois saberes.
Ciência:
Exposição de Irio Coutinho.
Princípios Metafísicos da Filosofia da Natureza.
Natureza extensa: objetos sensíveis.
Natureza pensante: doutrina da alma.
Kant: ciência é qualquer doutrina quando deve formar um sistema de todo conhecimento, segundo princípios.
Ciência para Kant é dividida em: histórica (saber sistemáticos, segundo princípios) como, por exemplo, a biologia e racional a física.
As ciências podem ser ainda genuínas: a priori (a física) e podem ser impróprias a posteriori (a química). Essas últimas seriam consideradas como arte sistêmica.
Matemática
Obs. A matemática relaciona-se com o mundo mediante, entre outras coisas, a categoria de quantidade.
Pergunta: qual seria intuição à qual corresponde o objeto matemático? Resposta possível: toda forma de apresentar os referidos objetos: número desenhado ou rabiscado, dedos, tábua de calcular, etc. O objeto matemático pode ser apresentado mediante qualquer um dos objetos enumerados acima, entretanto ele não se reduz a nenhum desses objetos. Além disso, a forma de apresentar o objeto matemático na intuição não altera o conceito desse objeto. Cf. B742 e A714.
Assim, apresentar a intuição à qual corresponde o objeto matemático é prover-lhe de um símbolo, seja qual for ele; o desenho do número, dedos, laranjas etc. Disso podemos dizer que o esquema do número é dado a priori, diferentemente de sua intuição, a posteriori.
A significatividade do objeto matemático está condicionada à apresentação da intuição que lhe corresponde ou diríamos, de forma mais precisa, o símbolo que lhe corresponde. Desse modo, o objeto matemático pode designar diversos objetos, sem se reduzir a nenhum deles, além de também poder ser simbolizado de diversas maneiras. Um objeto matemático pode ter várias intuições que lhe correspondam. Cf. B299.A240.
Última questão: qual é o status ontológico do juízo analítico? Se todo objeto tem uma intuição que lhe corresponde, qual seria a intuição que corresponderia ao objeto matemático obtido mediante um juízo analítico, que por definição é dado a priori?
Diferentes abordagens sobre o problema da matemática. 1 Na modernidade tenta-se entender a relação da matemática com o mundo, isto é, com a linguagem formal da matemática é capaz de comporta-se uma lente de leitura do real, transitório e efêmero 2 Problema da filosofia contemporânea: é possível estabelecer uma ontologia para a matemática? O que são os objetos matemáticos? Poderíamos perguntar ainda: qual o referente de uma proposição da matemática?
Resumo: Prof. Dr. Érico Andrade
Grupo Kant – Ata I (18/06/2007)
I - Leitura de "Sobre a Introdução da 'Crítica da Razão Pura'", de autoria de João Breda. - Questão: o método não é regra? - A "Crítica da Razão Pura" é analítica ou estética de acordo com o "Prolegômenos"? - "apogéticas". - Discussão acerca da redução ao absurdo na "Crítica da Razão Pura". - "bilíneo retilíneo": objeção à "redução ao absurdo" na "Crítica da Razão Pura". - Kant nega o princípio do terceiro excluido? - Felipe Sodré: "Cognitivamente a 'Analítica' precede a 'Estética'." II - Leitura de "A Filosofia Transcendental e a Filosofia Crítica", de autoria de Felipe Sodré. - Problema com o uso dos termos na "Crítica da Razão Pura".
Apresentação
O Grupo de Estudo Kant da UFPE tem como objetivo uma leitura crítica e analítica da Crítica da Razão Pura em seus encontros, além de uma vasta bibliografia de comentadores da obra do filósofo almeão e textos de integrantes do grupo.
No presente blog serão fornecidas as atas de cada encontro, textos dos integrantes e material diverso sobre a obra de Kant.
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